Luiz Bacellar é, dentre os expressivos
poetas amazonenses, o mais aclamado pelas elites, estudantes e populares de
Manaus. Mas, ao contrário do que possa parecer, sua poesia não é tão simples, de
fácil consumo. Artesão da palavra, carpinteiro do verso, Bacellar constrói cada
poema com rigor formal e forte densidade temática, numa linguagem refinada,
primorosa.
Como explicar o sucesso de um poeta sério como Luiz Bacellar
que não faz poesia em função do mercado? Mistérios da poesia, da arte? Talvez.
Quem sabe uma resposta ao mercado do livro que aí está: a boa literatura
brasileira existe; há, sim, leitores para a poesia, o conto, o romance, a novela
de nossos escritores.
A verdade é que são 50 anos de trabalho poético de
Luiz Bacellar.
Frauta de barro, seu livro de estreia, na correta
afirmação do poeta e crítico literário professor Tenório Telles, “é um marco na
evolução da literatura que se faz no Amazonas”.
De formação clássica e
espírito de renovação estética modernista, Bacellar pôde construir, com
admirável liberdade (já a partir desse livro) algo de novo na dicção lírica de
sua poesia. E que haveria de se ampliar em livros posteriores. Canta o poeta em
“Variações sobre um prólogo”: “Em menino achei um dia/ bem no fundo de um
surrão/ um frio tubo de argila/ e fui feliz desde então; // rude e doce melodia/
quando me pus a soprá-lo/ jorrou límpida e tranquila/ como água por um gargalo.
// E mesmo que toda a gente/ fique rindo, duvidando/ destas estórias que narro,
// não me importo: vou contente/ toscamente improvisando/ na minha frauta de
barro.// É o tema recomeçado/ na minha vária canção.”
Enquanto muitos
destroem o passado com a ânsia de criar o novo, o moderno, o poeta Luiz Bacellar
mantém forte diálogo com a tradição, elege a memória como tema em muitos de seus
textos poéticos. Sem saudosismos. O passado tem o sentido de memória, de
registro - seja de denúncia ou crítica (quase sempre bem-humorada) contra o
silêncio do descaso, do abandono, da “insanidade de um presente” que flagela e
aniquila as fontes de nossa história. Como nos versos de “Balada da rua da
Conceição”: “Vão derrubar vinte casas/ na rua da Conceição./ Vão derrubar as
mangueiras/ e as fachadas de azulejo/ da rua da Conceição./ (Onde irão morar os
ratos/ de ventre gordo e pelado?/ e a saparia canora da rua da Conceição?” O
poeta, por vezes, estende o olhar sobre gentes humildes, os esquecidos, como em
“Lavadeiras”, poema do mais fino lirismo, comparável a de um Jorge de Lima: “A
roupa nos varais panda flutuando,/ com seus laivos de anil coando a brisa,/ até
parece ávida nau cortando/ o mar azul que a leve espuma frisa.// O vento
timoneiro vai guiando/ e o sol nas bolhas de sabão se irisa/ enquanto as
lavadeiras vão cantando/ a torcer e a bater na tábua lisa”. Aliás, como um
Midas, Bacellar consegue transformar em filigranas de poesia as coisas mais
comuns, por exemplo, um simples isqueiro, vejam: “Se, na pedra, acordo estrelas/
com um golpe do polegar,/ a chama, só para vê-las,/ já se levanta a
bailar”.
Frauta de barro tem ainda outro mérito. Deu ao poeta Luiz
Bacellar o prêmio Olavo Bilac, da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro (1959).
Na comissão julgadora do concurso estavam dois dos maiores poetas brasileiros,
Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Pode haver reconhecimento maior
que este, para qualquer escritor?
Mas Luiz Bacellar não é poeta de um
livro só. Outros foram publicados. Cada um deles revela, de modo surpreendente,
a performance desse poeta que tece poesia de altíssima qualidade.
Sol
de feira é outro grande momento literário de Luiz Bacellar. Para início, o
tema é originalíssimo, senão inusitado, na poética brasileira. Professor Ernesto
Renan Freitas Pinto considerou o livro um “pomar real” que “nos ensina a admirar
e saborear a rica coleção dos frutos da terra”. Vejo-o como telas do mais belo
impressionismo. Mas, às vezes, parece escorrer, do rondel de cada fruta, um sumo
mágico de canções: é quando me sinto arrebatado pelos acordes de uma sinfonia de
Bach ou Handel. Por que não de Villa-Lobos? Como nos versos de “rondel da
pitanga”: “Gracioso arbusto/ de folhas breves/ todo adornado/ de frutos leves/
como as caboclas/ do meu torrão/ e as notas loucas/ do meu violão// rubras
miçangas/ rubis talhados/ de viva cor/ sois vós pitangas/ cristalizados/ beijos
de amor”.
Há mais, muito mais. Por exemplo, um belíssimo poema musical
longo, dividido em 33 partes – ou, como declara o poeta, sonata em si bemol
menor para flauta, fagote, clarinete e oboé. Inclusive uma boa safra de haicais,
em que o poeta reafirma o seu talento criativo. “Rajadas de chuva/ sobre o teto
de alumínio:/ sons da lua cheia.” “Como um prisioneiro/ a lua me espia pelas/
grades do banheiro.” “Água resmungona.../ No tanque limoso/ o pulo da rã.”
(Bashô)
A Editora Valer publicou (1998) as obras de Luiz Bacellar,
reunidas em um só volume, com o título de
Quarteto.
Vale a pena
ler Luiz Bacellar. E conhecer, através de seus poemas, a trajetória luminosa do
poeta amazonense, que atingiu o estado de excelência na poesia brasileira. Mais
que isto. Ultrapassou a barreira do preestabelecido: ao lidar com elementos
tradicionais, aprofunda o exato conceito de modernidade.